"Nós somos os mortos. Nossa única vida genuína repousa no futuro." - Winston (George Orwell, obra 1984).
“Nós somos os mortos” - frase utilizada com certa frequência no material que tenho tido contato com ultimamente. Nas duas instâncias essa frase é utilizada como um reflexo às escolhas feitas pelos personagens, assumindo um caráter, de certa forma, político em ambos os casos.
“Nós somos os mortos” - frase utilizada com certa frequência no material que tenho tido contato com ultimamente. Nas duas instâncias essa frase é utilizada como um reflexo às escolhas feitas pelos personagens, assumindo um caráter, de certa forma, político em ambos os casos.
Ouvi a frase pela primeira vez na música “Sons of Fate” da banda Protomen. Neste caso ela é utilizada pelas massas que haviam se reunido para ver a luta mortal entre os dois irmão (Megaman e Protoman). Ao ganhar, Megaman percebe o desejo de sangue das pessoas da cidade e percebe, também, que elas jamais irão lutar contra o regime do ditador Wily. Iluminado por esta percepção, Megaman dá as costas e vai embora, virando apenas uma última vez para olhar para o público quando este começa, ao ser chacinado pelo exército robótico, a cantar em uníssono: “We are the dead” - “Nós somos os mortos.”
Coincidentemente, entrei em contato novamente com esta frase ao ler a obra 1984 de George Orwell (um ótimo livro, por sinal, se um tanto deprimente). Nesta obra, o personagem principal, Winston, usa esta frase ao pensar sobre sua vida e a de sua amante, mas a frase pode ser ampliada para todos os habitantes do mundo descrito pelo livro. Winston chega à conclusão de que já esta morto quando pensa na sua situação de rebelde perante ao regime cruel e totalitário do “Partido”, comentando que “Nossa única vida genuína repousa no futuro”. O futuro a que ele se refere é um futuro que nunca verá, coisa de gerações após a sua. Um “insight” importante, até porque uma ação de mudança social significativa provavelmente só terá efeito muitos anos depois, provavelmente não estaremos aqui para ver.
A diferença principal entre as duas utilizações, a nosso ver, é o que a frase significa para o futuro que ultrapassa os respectivos personagens. No primeiro caso é a fatalidade, o sentimento de total impotência perante a situação em que se encontram. Uma sensação comum em pessoas como nós e que imagino ser maior ainda naqueles que, apesar de pensarem sobre o estado do mundo, se submetem ao “sistema” sem maiores resistências. Mesmo diante do herói que vem para salvá-los, o “povo” é incapaz de agir, não passando de observadores de suas próprias vidas.
No segundo caso, é o esclarecimento. A percepção de que o mundo não mudará da noite para o dia e de que todos os que lutam para esta mudança são, na melhor das hipóteses, mártires e sacrifícios para gerações futuras. Esta sempre foi uma verdade da luta pela mudança, gerações e gerações de pequenas mudanças e nomes que nunca foram ou serão documentados na história antes de uma mudança repentina, onde todos são heróis.
Felizmente, o mundo mudou e, hoje em dia, grupos relativamente pequenos possuem a capacidade de efetuar mudanças significativas. A mídia informal permitiu a grande circulação de informações que seriam, anteriormente, impedidas de circular, sendo acobertadas ou distorcidas pela mídia tradicional (jornais, televisão, rádio e etc). Contudo, mesmo com essas mudanças, as mudanças em grande escala continuam sendo muito difíceis de ocorrer. Cabe a nós, que tem o privilégio de pensar e discutir esses temas, disseminar essas ideias e oferecer as ferramentas para a mudança das futuras gerações. Cabe a nós, em suma, decidir que tipo de “Mortos” nós somos.
Fraternalmente,
mascarasesabonetes

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