quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Tempo na Sociedade Capitalista


É interessante analisar o sonho que nos é vendido pela cultura capitalista com toda a sua força de difusão e com alcance que atinge tanto os mais jovens quanto aqueles que teoricamente já cumpriram com seu papel social e estão aposentados mas que repassam e reforçam esse pensamento. Esse sonho liberal de que a oportunidade esta ai e que basta o nosso esforço para alcança-la é incentivado pela mídia a todo tempo. Essa ideia nos é empurrada goela abaixo e, portanto, nos sentimos na obrigação de correr atrás do nosso futuro sem parada para respirar. Estudamos, e como estudamos. Estudamos sem parar, mesmo que muitas vezes os conteúdos sejam inúteis.
Dizem os “capitalistas” que teremos maiores chances na fila de acesso ao mercado de trabalho após essa moratória exaustiva que é a escola,paralelamente, o pensamento liberal nos faz crer que se não obtivermos essa inserção e morrermos de fome em algum canto escuro da cidade. Bem, a responsabilidade é nossa e a culpa terceirizada, nunca do próprio sistema. A oportunidade nos foi dada e não soubemos agarra-la, é o argumento mais comum, junto com “é pobre porque não quer trabalhar.Não se fala, entretanto, sobre a situação precária da educação pública e sua influência na polarização do contraste econômico. É raro ouvir também que existe qualquer parcela de culpa dessa educação aleijada na distribuição equitativa de oportunidades de emprego e renda. Factualmente, aprendemos poucas coisas no ensino fundamental e médio que possam vir a ser úteis ao longo da vida e que nos ajudaria, caso necessário, a permanecermos vivos no sistema capitalista caso tudo não ocorra como em um filme de cinema.
Vale a pena deixar aqui registrado a inversão que estamos vivenciando em nosso sistema educacional já há algum tempo; É sabido que no Brasil a educação pública tem uma qualidade duvidosa, e em contrapartida, as escolas particulares dão um preparo melhor a seus alunos nos conhecimentos necessários para a realização do vestibular e, portanto, no ingresso à universidade pública. Essa universidade deveria atender àqueles que não têm o poder financeiro para pagar uma faculdade particular, mas não é isso que acontece. Para não falar muito, aquele que não tem uma condição financeira muito boa, terá um ensino pior, certo? Esse ensino inferior muitas vezes, inviabilizará a entrada no ensino superior gratuito. Ou seja, a alternativa de uma formação superior para os que não tiveram dinheiro para arcar com a educação particular antes, é pagar o superior particular depois. Já os favorecidos financeiramente que tem o dinheiro necessário para pagar as faculdades particulares, estarão nas públicas. Irônico não?
(Sim, há cotas. Não, elas não resolvem o problema se funcionarem como um a muleta em vez de como parte de um processo.)
Voltando ao rumo da conversa, dizem-nos que quem estuda mais conseguirá um trabalho melhor e quanto mais nos dedicarmos à nossa preparação melhor serão os resultados. Torna-se necessário então estudar com muita dedicação e sacrifício. Se conseguirmos realizar as etapas anteriores e se acumularmos o capital que nos é oferecido em troca de nosso suor físico e intelectual teremos uma vida boa. Acreditamos nisso!Obedecemos com tanto ímpeto que ficamos presos ao ciclo de acordar, se arrumar, trabalhar, assistir TV e dormir. E para que? Termos uma vida boa em troca da submissão e da perda de uma boa parte da nossa vida?
Façamos as contas: Uma pessoa inserida no contexto capitalista trabalha no mínimo 8 horas por dia, 9 se incluirmos o horário de almoço (Ignoremos, por hora, a validade ou significância deste trabalho, muitas vezes inútil ou puramente burocrático, sem nenhum significado real para o funcionário, e, nula contribuição social). Basicamente, colocamos nossos sonhos em espera por causa dessas 9 horas diárias que nos darão um salário miserável perto do que de fato trabalhamos. Não acaba aí.
Vamos supor que tenhamos o recurso financeiro necessário para vivermos na cidade em que trabalhamos e não em algum ponto muito distante do trabalho, suporemos de forma otimista que essa cidade em que vivemos tem um transporte público de qualidade e pouco engarrafamento. Podemos tranquilamente adicionar 1 hora/dia que passamos nos deslocando para o trabalho. Já se foram 10 horas do nosso dia só no que diz respeito ao trabalho, e nem estamos considerando a péssima qualidade do tempo que passamos, muitas vezes, fora do trabalho, devido ao estresse, ao cansaço ou a preocupação com nossas responsabilidades profissionais.
Imaginemos agora em um contexto fantasioso, que a maioria das pessoas nessa situação não tem o poder aquisitivo de viver de tele-entrega e, como tem se tornado cada vez mais frequente, mora sozinha. Essa pessoa gastará mais 1 hora/dia preparando e satisfazendo suas necessidades de alimentação. Somaremos a conta 1 hora/dia vendo TV, ou seja, uma hora desperdiçada da sua vida frente à infinidade de propagandas e programas direcionados a fazê-la acreditar que precisa de mais do que já tem.
*Gastamos até então 12 horas do nosso dia.
Vamos pensar que este sujeito hipotético é sortudo e consegue ter mais ou menos 8 horas de sono por dia. Digamos também que a pessoa em questão é relativamente veloz em suas preparações e processos de higiene gastando somente 1 hora/dia entre tomar banho, escovar o dente e se arrumar.
*Total: 21 horas/dia; 21 horas por dia; 105 horas por semana; 420 horas por mês e em torno de 5040 horas por ano.
Ao pensar que temos por volta de 8064 horas em um ano, chegamos à conclusão que mais de metade da nossa vida é gasta com outras coisas que não nossa família, nossa comunidade, nossos amigos e nossos sonhos. Condicionalmente, para cada 40 anos de nossa vida trabalhando e com essa rotina supracitada gastamos mais de 20 anos sem viver para nós mesmos. Nessa conta acima, só foi processado o tempo de trabalho e necessidades básicas, não foi considerado todos os anos no ensino fundamental e médio que passamos aprendendo pouca coisa útil. E mesmo considerando apenas o trabalho e coisas a ele relacionadas teremos ai em torno de 16 anos de nossa vida, muitas vezes, desperdiçado.
Trazendo o hipotético para a vida real, quantos são os que não se encaixam nesse perfil acima citado? Certamente poucos.
Esses números traduzem as frases mais comuns e frequentes nos leitos de morte: “Queria ter trabalhado menos”; “Queria ter passado mais tempo com minha família e amigos.”. É isso que vocês, irmãos e irmãs que nos leem, gostariam que fossem suas últimas palavras? A nossa luta é para que essa realidade se altere para todos, e nosso desejo mais profundo é que vocês façam parte dessa luta também. Afinal, são as nossas vidas em jogo.
Fraternalmente,
mascarasesabonetes

Disclaimer: Não advogamos aqui a total extinção do trabalho, existem trabalhos que são necessários para a manutenção de uma comunidade, mesmo de uma comunidade anarquista. Mas a distribuição justa destes trabalhos e a ausência de uma lógica capitalista de mais-valia, de exploração das massas por poucos, pode reduzir este tempo perdido talvez até pela metade (ou até mais). E mesmo que não, não nos sentiríamos mais afogados em nossa solidão e insignificância, nosso trabalho poderia ter sentido e aplicabilidade real para o bem das nossas famílias, amigos e vizinhos. Poderíamos ver sentido no nosso esforço e beleza nas nossas produções não mais pautadas por uma demanda do grupo soberano, mas pelo bem comum.
Não veríamos mais tratados internacionais de redução de poluição sendo negados por um ou outro país achar que precisa de mais dinheiro, números em um banco de dados. Vendemos o nosso mundo, nossa saúde e nosso tempo. Vendemos outros seres humanos, nossos irmãos e irmãs, por o quê? Um bolo de papel? Números em uma tela? Será que somos os únicos que vemos o quanto isso é absurdo?
Enfim, entraremos mais a fundo nesta questão em outros posts.

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